A ficcionalização da realidade em A confissão da leoa

A seguir, você irá ler um trecho do romance A confissão da leoa (2016), do autor moçambicano Mia Couto (1955-), baseado em uma história real, assim como O som do rugido da onça.
Para escrever essa obra, Mia Couto ficcionalizou ataques de leões a pessoas que começaram a ocorrer ao norte de Moçambique. Caçadores foram recrutados para a proteção das
aldeias, mas, aos poucos, perceberam que, do ponto de vista dos habitantes das aldeias, os
ataques tinham origem sobrenatural.
O romance apresenta dois narradores personagens: o caçador Arcanjo Baleiro, recrutado
para a aldeia de Kulumani com o objetivo de liquidar os leões, e Mariamar, habitante local
que, por causa dos ataques dos leões, é proibida de sair de casa. Cada um por meio da sua
voz narrativa observa e descreve os acontecimentos.
No trecho que você irá ler a seguir, a voz narrativa é de Mariamar.




A confissão da leoa
Quanto mais vazia a vida, mais ela é habitada por aqueles que já foram: os loucos, os falecidos. Em Kulumani, todos idolatramos os nossos
mortos, todos guardamos neles as raízes dos sonhos. O meu morto maior
é Adjiru Kapitamoro. Em rigor, ele é o irmão mais velho de minha mãe. Na
nossa terra, designamos de ‘avô’ todos os tios maternos. Adjiru é, aliás, o
único avô que conheci. Chamamo-lo, em casa, de anakulu, ‘o nosso mais
antigo’. Ninguém soube nunca a sua idade, nem ele mesmo tinha ideia de
quando nascera. A verdade é que se proclamava tão perene que atribuía a
si próprio a autoria do rio que atravessa a aldeia.
— Fui eu que fiz este rio, o Lundi Lideia — defendia, com altivez.
Era longa a lista das suas fabulosas fabricações: para além do rio, o
avô já confecionara penedos, abismos e chuvas. Tudo graças às poderosas
mintela, as mezinhas e os amuletos dos feiticeiros. Contudo, ele negava o
grave estatuto:
— Não sou feiticeiro, sou apenas velho.
No tempo colonial, o seu pai, o venerado Muarimi, exerceu funções
de capitão-mor. Cobrava impostos e resolvia conflitos locais a favor dos
colonos. Esse cargo custou a meu bisavô culpas, invejas e duradouras inimizades. A nossa família, contudo, ganhou o nome que agora ostenta: os
Kapitamoros. Numa terra sem bandeira, nós erguíamos essa emprestada
insígnia como se fosse um direito natural e milenar.
Ao arrepio da tradição familiar, o avô Adjiru se entregou a uma distinta ocupação: a caça. Era isso que ele era, por vocação e juramento: um
caçador. A arma é a minha alma, dizia. Por acidente matou um homem, no
cerco a um leopardo, para os lados de Quionga. Para se purificar desse sangue teria que se esfregar em cinzas de árvores. Recusou o ritual: para ele,
um assimilado, aquilo era uma insuportável humilhação. Ficou interdito
de caçar, limitando-se a atuar como pisteiro. Com a dignidade de um rei,
aceitou essa despromoção. Até ao dia em que morreu, não perdeu o porte
nobre. Exercendo serviços de chão, continuou sendo ele a derramar sombra
em todo Kulumani. E agora, que a aldeia estremecia perante a ameaça dos
leões, todos sentiam saudade dessa divina proteção.
Meu pai, Genito Serafim Mpepe, podia também ter sido caçador, por pleno
direito. Preferiu, contudo, ficar por pisteiro, em solidariedade para com o seu
falecido mentor. Despromovido um, despromovido o outro. Em tudo, afinal,
Genito ambicionava seguir as passadas do destronado caçador. Todavia, o
estatuto do avô era inalcançável. Adjiru fora mais que um mweniekaya, um
chefe de família. A sua autoridade sempre se estendeu a toda a vizinhança.
Era um mando silencioso, sem proclamação, de quem exerce grandeza sem
precisar de palavra. Mas eu, Mariamar, era para ele uma pessoa especial. Para
mim, o nosso ‘mais antigo’ reservara o mais enigmático presságio:
— Você, Mariamar, veio do rio. E ainda há de surpreender a todos: um dia,
você irá para onde o rio vai — vaticinou ele.
 
COUTO, Mia. A confissão da leoa. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
E-book. Localizável em: Versão de Mariamar (2). O regresso do rio.

GLOSSÁRIO 
perene: aquilo que
permanece durante um
longo tempo.

altivez: sentimento de
dignidade.

penedo: rochedo.

venerado: respeitado.

ostentar: exibir.

insígnia: sinal de poder.

assimilado: aquele que
foi tornado semelhante
a uma cultura, sem
necessariamente
pertencer a ela a
princípio.

pisteiro: aquele que
segue o rastro de algum
animal.

presságio: adivinhação
do futuro.

vaticinar: adivinhar.


BIOGRAFIA DO AUTOR
António Emílio Leite Couto, conhecido como Mia Couto é biólogo, jornalista, escritor e professor moçambicano.O autor publicou o seu primeiro livro, Raiz deorvalho, em 1983. O seuromance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.Apresenta uma obra diversificada, que tem por objetivo explorar a relação da humanidade com a natureza e o território.


Atividade
1) Qual é a importância dos falecidos para os habitantes de Kulumani?

2) Como a expressão raízes dos sonhos pode ser compreendida no contexto do
romance?

3) Releia o trecho, observe o modo como a figura de Adjiru Kapitamoro é descrita e, em
seguida, responda às questões.
 
a) Quais características do personagem são destacadas como fundamentais para sua
identidade e seu papel em Kulumani?
b) Adjiru Kapitamoro recusa-se a se purificar após matar um homem por acidente.
Quais aspectos de sua personalidade e crenças são revelados com essa recusa

4) Tendo em vista a relação entre Genito Serafim e Adjiru Kapitamoro, como a memória e
o legado deste influenciaram as aspirações e as ações daquele na aldeia de Kulumani?

5) Após a apresentação das experiências passadas e da posição ocupada por Adjiru
Kapitamoro, revela-se o presságio feito pelo personagem. Que presságio é esse?

6) Antes de revelar o presságio, a narradora apresentou e justificou a autoridade exercida por Adjiru. Como essa construção influencia o modo como o presságio é recebido pelo leitor?

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