A memória na literatura negra contemporânea
A memória na literatura negra contemporânea
A seguir, você lerá um trecho do conto “Os pés do dançarino”, escrito por ConceiçãoEvaristo e publicado no livro Histórias de leves enganos e parecenças, de 2016.
A obra reúne doze contos e uma novela que exploram acontecimentos incomuns.
Os pés do dançarino Davenir era o que melhor possuía a arte dos pés na pequena cidade onde tinha nascido, em Dançolândia. O dom de bem dançar era uma característica comum de todos que ali tivessem nascido, ou que porventura tivessem escolhido viver na cidade. Dizendo melhor sobre Davenir, é preciso afirmar que no moço não era só a competência nos pés que fazia dele, quem ele era, mas o corpo todo. Tudo nele
era habilidade para a dança. O corpo e todas as minúcias. O olho, a boca, o cabelo lindamente crespo em desalinho. A dança estava tão entranhada no corpo de Davenir, que alguns diziam que nem com amores Davenir se preocupava. Na dança, o gozo, o prazer maior. Aos sete anos, tendo observado aulas de dança em programas de televisão e participado dos bailes familiares, ele já dançava samba e tango. A família adivinhando para ele um futuro profissional, enfrentou todos os comentários jocosos e colocou
o menino em aulas de balé. Não deu outra. Tudo certo. Davenir foi se tornando cada vez melhor. […] Contemplado com bolsas de estudos, inclusive para o exterior, lá se foi Davenir experimentar palcos e danças de outras culturas e exibir a sua natural versatilidade. Em uma mesma apresentação, ele era capaz de dançar uma congada mineira, um batuque afro-tietense, uma dança tcheca, como a polca, um reggaeda Jamaica e do Maranhão, como também imprimia graça e verdad ao corpo, quando apresentava um rap. Era tanta a habilidade, o dom, a técnica do moço, tanta competência, tanta arte tinha Davenir, que não havia nomeação certa para ele. Bailarino, dançarino, dançador, pé de valsa, pé de ouro de todas as danças… E com tanto sucesso merecido, o moço esqueceu alguns sentimentos e ganhou outros não tão aconselháveis. Os conterrâneos de Davenir foram testemunhas do que aconteceu com ele um dia. E entre lamentos contavam o fato, e desejavam ardentemente que Davenir reencontrasse os seus perdidos pés. Vejam como o fato se deu:
Quando Davenir regressou à Dançolândia, um grande baile,
na praça da cidade, foi organizado para esperá-lo. O evento era de agrado de todos, pois o dom da dança era de pertença de quem ali havia nascido e de
quem chegava para ficar. O slogan da festa era “O importante é dançar”. Não houve quem
ficasse em casa; das partes mais longínquas da cidade, as pessoas saíam em direção ao
local do festejo. Todos estavam saudosos do filho da terra que “dançava com alma nos
pés”, aliás, slogan que os dançolandenses tinham ampliado, criando uma máxima: “só
dança bem, quem a alma nos pés tem”. E depois de umas poucas horas, que pareceram
infindas para o público, Davenir chegou à praça, pronto para receber as homenagens.
Chegou certo de que era um tributo merecido e de que outras celebrações deveriam acontecer. Para Davenir, a cidade deveria curvar-se aos seus pés, pois tinha sido graças a sua arte que um lugarzinho como aquele tinha se tornado conhecido no mundo. E, na vaidade do momento, Davenir nem prestou atenção em três mulheres, as mais velhas da cidade, que estavam postadas nas escadas do coreto, em que ele deveria subir. Passou por elas, sem sinal de qualquer reconhecimento. Também não percebeu o abraço lançado ao vazio que elas fizeram em direção a ele. Davenir pensava só na homenagem que iria acontecer e nas fotos que seriam tiradas dele com as autoridades da cidade.
E depois de apresentações que levaram o público às lágrimas, Davenir emocionado se preparou para deixar o local. Ao descer as escadas, foi que ele reconheceu as
respeitáveis anciãs da cidade. Elas estavam ainda de braços abertos, esperando para
abraçá-lo e receber os abraços dele também. Foi quando Davenir se viu menino novamente e nesse instante reconheceu que a mais velha das velhas era sua bisavó. Ela tinha sido a primeira pessoa que distinguiu nele o dom para dança. A segunda velha tinha sido aquela que um dia, com oração e unguentos, curara milagrosamente, o joelho deslocado dele. Acidente que ele sofrera, em véspera de uma grande apresentação. E a terceira, Davenir não conseguia se lembrar, de quem se tratava, embora a fisionomia não lhe fosse estranha. Mas nem assim Davenir parou para acolher o carinho das velhas tão marcantes em seu destino. E, à medida que descia as escadas e seguia o caminho, uma dor estranha foi invadindo seus membros inferiores. Foi tomado também por um desesperado desejo de arrancar os sapatos que lhe pareciam moles, bambos e vazios de lembranças em seus pés. Susto tomou ao puxar os sapatos, quando sentiu as meias vazias. Deu pela ausência dos pés que, entretanto, doíam. Nesse mesmo instante recebeu de alguém da casa um recado da Bisa, a mais velha das velhas. Os pés dele tinham ficado esquecidos no tempo, mas que ficasse tranquilo. Era só ele fazer o caminho de volta, para chegar novamente ao princípio de tudo.
respeitáveis anciãs da cidade. Elas estavam ainda de braços abertos, esperando para
abraçá-lo e receber os abraços dele também. Foi quando Davenir se viu menino novamente e nesse instante reconheceu que a mais velha das velhas era sua bisavó. Ela tinha sido a primeira pessoa que distinguiu nele o dom para dança. A segunda velha tinha sido aquela que um dia, com oração e unguentos, curara milagrosamente, o joelho deslocado dele. Acidente que ele sofrera, em véspera de uma grande apresentação. E a terceira, Davenir não conseguia se lembrar, de quem se tratava, embora a fisionomia não lhe fosse estranha. Mas nem assim Davenir parou para acolher o carinho das velhas tão marcantes em seu destino. E, à medida que descia as escadas e seguia o caminho, uma dor estranha foi invadindo seus membros inferiores. Foi tomado também por um desesperado desejo de arrancar os sapatos que lhe pareciam moles, bambos e vazios de lembranças em seus pés. Susto tomou ao puxar os sapatos, quando sentiu as meias vazias. Deu pela ausência dos pés que, entretanto, doíam. Nesse mesmo instante recebeu de alguém da casa um recado da Bisa, a mais velha das velhas. Os pés dele tinham ficado esquecidos no tempo, mas que ficasse tranquilo. Era só ele fazer o caminho de volta, para chegar novamente ao princípio de tudo.
EVARISTO, Conceição. Os pés do dançarino. In: EVARISTO, Conceição. Histórias de leves enganos e parecenças. Rio de Janeiro: Malê, 2017. p. 41-44.
Glossário
Jocoso: que provoca zombaria e riso.
Biografia da autora
Maria da Conceição Evaristo de Brito é um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea brasileira. Graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do
Rio de Janeiro (PUC-RJ), Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a autora se dedica ao estudo e à construção de uma poética afro-brasileira. Integrante da Academia Mineira de Letras, estreou na literatura em 1990 publicando os seus poemas na série Cadernos Negros, periódico que, desde 1970, divulga textos de escritores afro-brasileiros. Seus livros são tema de diversos estudos acadêmicos e foram traduzidos para diversos idiomas, como inglês, francês e espanhol. Em entrevistas, Conceição Evaristo costuma enfatizar que nasceu em uma casa vazia de livros e bens materiais, porém repleta de palavras e contações de histórias que, hoje, permeiam a sua literatura.
Rio de Janeiro (PUC-RJ), Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a autora se dedica ao estudo e à construção de uma poética afro-brasileira. Integrante da Academia Mineira de Letras, estreou na literatura em 1990 publicando os seus poemas na série Cadernos Negros, periódico que, desde 1970, divulga textos de escritores afro-brasileiros. Seus livros são tema de diversos estudos acadêmicos e foram traduzidos para diversos idiomas, como inglês, francês e espanhol. Em entrevistas, Conceição Evaristo costuma enfatizar que nasceu em uma casa vazia de livros e bens materiais, porém repleta de palavras e contações de histórias que, hoje, permeiam a sua literatura.
Atividade
Leia o trecho a seguir, retirado do conto “Os pés do dançarino”.
"Tudo nele era habilidade para dança. O corpo e todas as minúcias. O olho, a
boca, o cabelo lindamente crespo em desalinho."
1) O que a descrição de Davenir permite inferir sobre a sua identidade racial?
2) Qual é o efeito de sentido gerado pela utilização do adjetivo lindamente para
descrever o cabelo de Davenir?
3) Qual foi a atitude da família ao perceber que Davenir tinha aptidão para a dança?
4) Ao final da narrativa, a palavra pé adquire outra simbologia. Identifique-a, considerando a sua interpretação do conto lido.
5) Considerando o contexto da narrativa, descreva o papel das anciãs na vida de
Davenir.6) Inicialmente, o encontro de Davenir com as anciãs altera a percepção do personagem sobre sua trajetória? Explique.
7) Como a história de Davenir e a reconexão com as raízes dele podem inspirar você
a refletir sobre a sua própria conexão com os seus antepassados? Considere como
a valorização da ancestralidade pode influenciar a construção da identidade e das
escolhas de vida.
a refletir sobre a sua própria conexão com os seus antepassados? Considere como
a valorização da ancestralidade pode influenciar a construção da identidade e das
escolhas de vida.
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