O som do rugido da onça
1. II.
Esta é a história da morte de Iñe-e. E também a história de como ela
perdeu o seu nome e a sua casa. E ainda a história de como permanece em
vigilância. De como foi levada mar afora para uma terra de inimigos. E de
como, por artes deles, perdeu e também recuperou a sua voz. Preste atenção,
essa voz que eu apresento agora não é a mesma voz que ecoava pela mata
chamando pelos seus irmãos mais velhos enquanto colhia frutas para levar
para a maloca. E muito menos é a voz que foi silenciada por baixo das tempestades e dos gritos do capitão, a voz abafada por vergonha das imprecações incompreensíveis dos cientistas e, depois, contida pelos risos nervosos
dos cortesãos e pela impaciência rude das Fraülein.
Tampouco é a voz que ignorou o que diziam sobre ela os jornais e as
revistas da época, as cartas escritas em letras flexíveis como o broto do
cipó. Essa voz que você ocasionalmente escutará em sua cabeça e que se
confundirá com a sua própria voz, ou com a voz da sua filha, ou da criança
da mulher vizinha, ou até, quem sabe, com a voz de sua avó, seja ela quem
for, não é a mesma voz com que Iñe-e nasceu. Não é aquela que virou pedra em sua garganta quando ela foi viver no grande castelo entre pessoas quase
transparentes de tão brancas, suas carnes moles e azedas se movimentando
por entre os panos coloridos e brilhantes que, embora bonitos, não poderiam disfarçar o feiume dos seus captores, seus cabelos, a maioria desbotados, carecendo da beleza esplendente que a tinta negra do huito pode dar.
Também não foi aquela voz que ela escondeu, tesouro muito bem guardado,
para que os inimigos não tivessem nada mais dela.
Empresta-se para Iñe-e essa voz e essa língua, e mesmo essas letras,
todas muito bem-arrumadas, dispostas umas atrás das outras, como um
colar de formigas pelo chão, porque agora esse é o único meio disponível.
O mais eficiente. E embora ela, essa língua, seja áspera, perfurante, há
alguma liberdade sobre como pode ser utilizada, porque houve muito custo
em apreendê-la. Assim, se há uma recusa em usar a palavra taxidermia e
se escolhe usar a palavra desencantamento, há teimosia nisso. E pode ter
certeza de que Iñe-e aprovaria esse recurso. Se, em lugar de rio, ela falar
muaai ou até Fluss, pode se tratar de uma admoestação a respeito do que
lhe fizeram. Para contar esta história, Iñe-e adverte que não é possível ser
tolerante. Ademais, usa-se essa voz e essa língua porque é com ela que se
faz possível ferir melhor. É possível envenená-la, zarabatana, como fazem
os guerreiros do povo miranha com o curare preparado com o suor e sangue
de suas mulheres. É possível incendiá-la, curare quente e amargo. E de todo
modo, como já se disse, é possível usá-la como se quiser.
Essa é a voz do morto, na língua do morto, nas letras do morto. Tudo
eivado de imperfeição, é verdade, mas o que posso fazer senão contar, entre
as rachaduras, esta história? Feito planta que rompe a dureza do tijolo, suas
raízes caminhando pelo escuro, a força de suas folhas impondo nova paisagem, esta história procura o sol.
Quando Iñe-e morreu ela estava com doze anos de idade. Então, essa é
a voz da menina morta. E se alguém perceber nela um acento rascante, e
acaso a confundir com uma voz muito velha que se eleva de uma sepultura
congelada, garanto que é da infância que essa voz brota, nasce e se levanta.
E toda voz da infância, sabe-se, é selvagem, animal, insubordina os sentidos.
E agora que já se sabe, sigamos pelo começo de tudo. Por aquilo que foi
determinado como o começo de tudo. E embora alguém possa refutar e dizer
que esta história começou com um rei que, com o bisaco cheio de moedas
da ávida burguesia, resolveu lançar-se ao mar, aquele mesmo, o Tenebroso,
eu desminto e digo que tudo começou mesmo em Iñe-e.
VERUNSCHK, Micheliny. O som do rugido da onça. São Paulo:
Companhia das Letras, 2021. E-book. Localizável em: 1.II.
Glossário:
imprecação: desejo de
que algo ruim aconteça
com alguém.
que algo ruim aconteça
com alguém.
Fraülein: “senhorita”,
em alemão. No Brasil,
pode ser usado para
referir-se à governanta
ou à professora em
contextos específicos.
feiume: feiura.
huito: pequeno fruto
amazônico, usado
para pintura corporal
tradicional.
taxidermia: processo
que consiste em encher
de palha um animal
morto a fim de conservar
suas características.
admoestação:
advertência.
curare: veneno.
eivado: manchado, sujo.
rascante: áspero,
desagradável.
bisaco: pequeno saco
de pano.
Sobre a autora
Micheliny Verunschk é escritora, crítica literária, compositora e historiadora pernambucana.
Natural do Recife, a autora publicou duas obras de poemas: Geografia íntima do deserto(2003)
e A cartografia da noite(2010). Em 2014, Verunschk lançou o seu primeiro romance, intitulado
Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida (2014), e, com ele, foi contemplada com o
Prêmio São Paulo de Literatura na categoria melhor escritora estreante acima de 40 anos. Com
o romance O som do rugido da onça, a escritora foi vencedora de dois grandes prêmios literários: o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos. Além de graduada em História, é Mestre em Literatura
e Crítica Literária e Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP).
Natural do Recife, a autora publicou duas obras de poemas: Geografia íntima do deserto(2003)
e A cartografia da noite(2010). Em 2014, Verunschk lançou o seu primeiro romance, intitulado
Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida (2014), e, com ele, foi contemplada com o
Prêmio São Paulo de Literatura na categoria melhor escritora estreante acima de 40 anos. Com
o romance O som do rugido da onça, a escritora foi vencedora de dois grandes prêmios literários: o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos. Além de graduada em História, é Mestre em Literatura
e Crítica Literária e Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP).
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